quarta-feira, 23 de março de 2011

AMPULHETA DO TEMPO




- E se alguém lhe dissesse que essa vida da forma como você a vive e viveu no passado, você teria que vivê-la de novo, porém inúmeras vezes mais. Não haverá nada de novo nela. Cada dor, cada alegria, cada coisa minúscula ou grandiosa retornaria pra você, a mesma sucessão, a mesma sequência, várias vezes, como uma ampulheta do tempo. Imagine o infinito. Considere a possibilidade de que cada ato que escolher, escolherá para sempre. Então toda a vida não vivida permanecerá dentro de você. Não vivida por toda a eternidade.
- Gosta desta idéia?
- Eu detesto.

[Trecho do filme Quando Nietsche Chorou, adaptação do livro de Irvin D.Yalom]

segunda-feira, 21 de março de 2011

O MAL DO SÉCULO


Ah, a insatisfação típica do homem. Nunca está perfeito e por que será? É a tendência inexorável do ser humano, negativar tudo que a vida oferece de positivo. O impulso natural de querer sempre mais e melhor, uma das grandes qualidades humanas, se converte em um descontentamento generalizado. E tudo isso, em grande escala, gera a epidemia da infelicidade.
Ninguém escapa. O contágio se dá pelo ar e não poderia ser diferente, estamos falando de energia, essa força incontrolável que se propaga através das nossas palavras, ações e pensamentos desde a hora que acordamos, até a hora do tão esperado sono. Não raro, ao longo do dia, os obstáculos ganham volume e as insatisfações conquistam o papel principal nessa peça chamada vida. 
Mas, nem tudo está perdido. Há quem consiga canalizar a energia e se tornar imune ao vírus. Os jedis então ganham aliados fortíssimos que nem mesmo os sith são capazes de arrastar pro lado sombrio da força. E, pasmem, essas raras pessoas são facilmente identificáveis no cotidiano: elas elogiam muito, não julgam a vida alheia e ressaltam o lado positivo de todas as experiências, isso sem qualquer sinal de arrogância ou pretensão. Descobriram a cura da doença? Parece que sim.
Infelizmente, o antídoto não pode ser vendido na farmácia clandestina ali nos fundos da casa do vizinho. Ele só pode ser produzido por nós. Não há fórmulas certas e nem segredos ocultos a serem desvendados. A cura pode ser facilmente alcançada, basta que as pessoas enxerguem a vida pela perspectiva da sensibilidade e da emoção. Ouso discordar do nosso poeta Renato Russo, o mal do século não é a solidão, mas a eterna insatisfação.

MADAME BOVARY





Gostava do mar apenas pelas suas tempestades e da verdura só quando a encontrava espalhada entre ruínas. Tinha necessidade de tirar de tudo uma espécie de benefício pessoal e rejeitava como inútil o que quer que não contribuísse para a satisfação imediata de um desejo do seu coração - tendo um temperamento mais sentimental do que artístico e interessando-se mais por emoções do que por paisagens.

[Trecho do filme Madame Bovary, adaptação do livro de Gustave Flaubert]

MATURIDADE


Engana-se pensando que é você.
Você é um escultor Rodin, não uma escultura. Devia saber.
A moça que perdeu a juventude sou eu também. E o homem.
Ele me deu o vazio em troca.
Sim, três vezes eu.
A Santíssima Trindade.
A trindade do vazio.

[Trecho do filme Camille Claudel, sobre a obra Maturidade]

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

RIMAS


O grande amor de Sofia era um objeto.
Não era uma pessoa, não era um animal, não era uma planta.
Não tinha coração e nem expressão.
Não sabia amar (e nem poderia, era inanimado).
As pessoas diziam para Sofia: “é um objeto!
Mas Sofia ignorava e prosseguia.
Sofia queria que o objeto se sentisse vivo!
Mas se o objeto sequer sentia, como poderia?
Sofia mesmo assim não desistia.
Deu-lhe amor, deu-lhe carinho, deu-lhe cuidado!
Até que um dia numa manhã de fevereiro.
Uma tempestade entrou na casa de Sofia.
O objeto estilhaçou-se em pedacinhos.
E na queda cortou a mão de Sofia!
Sofia chorava, não sorria, não vivia.
Não era a pequena mão que lhe doía.
Nem tampouco a saudade que sentia.
Era o seu coração que não entendia:
Como pode? Não era apenas um objeto?
Se não respirava, não amava e não vivia?
De que forma então machucava?
Doía. Ninguém entendia.